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O trágico amor de Romeu Setembrino e Julieta Souza

Uma história parecida com a de Romeu e Julieta que aconteceu no sertão do Mofino, em algum lugar do Nordeste.


Essa terra já foi boa
Todo mundo trabalhando
Levando as dificuldades
Contra a miséria lutando
Unidos pela amizade
Todo mundo se ajudando

A cidade prosperou
Em vez de paz e justiça
Bem-estar e harmonia
Incentivou a cobiça
Esse vício que envenena
E vira carne em carniça

A terra subiu de preço
Surgiu a propriedade
Ficou cada um por si
Esquecendo a sociedade
Querendo ser mais esperto
Usando de falsidade

Dois coronéis se enfrentam
Pra ver quem leva vantagem
Quem é que tem mais dinheiro
Mais meeiros, mais linhagem
Qual deles fala mais alto
Qual dos dois tem mais coragem

O coronel Souza Emílio
Em riqueza é o primeiro
Sua casa é uma mansão
Com cem braças de terreiro
Trouxe até pedra da Itália
Pra azulejar o banheiro

Souza Emílio tinha uma filha
Que se chamava Julieta
A dindinha da família
Moça prendada e direita
Era o seu maior tesouro
Da beleza mais perfeita

Já o coronel Setembrino
É dono de meio mundo
Tem gado, algodão, açude
E um orgulho mais profundo
Não vai descansar direito
Enquanto for o segundo

Setembrino tinha um filho
Que se chamava Romeu
Era a alegria do pai
Depois que a esposa morreu
Para ele pretendia
Deixar tudo o que era seu

Essa briga deles dois
Só nos trouxe desgraceira
Quem sofre sempre é o povo
No final da brincadeira
Eles vivem no bem-bom
E a gente na fieira

A coisa fica pior
Em véspera de eleição
Cada qual no seu partido
Prometendo solução
Pra se eleger vale tudo:
Lembrancinha e pescoção

Este ano, Souza Emílio
Levou vantagem no pleito
Preparou grande festança
Pra comemorar o feito
Mandou convidar Setembrino
Para a posse do prefeito

Setembrino não gostou
Reuniu a jagunçada
Dizendo: — Vão até lá
Acabar com a palhaçada
Meu filho Romeu vai junto
Comandar essa zoada

Souza Emílio contratou
27 cozinheiros
85 garçons
52 sanfoneiros
41 repentistas
38 violeiros

Mataram-se 80 bois
Além de miunça e leitão
Todo o povo da cidade
Veio encher o seu latão
Cada um na sua patente
Se espalhou pelo oitão

Foi festança universal
De não se esquecer tão cedo
Romeu chegou lá disposto
A atrapalhar o enredo
Mas fingindo estar somente
Aproveitando o brinquedo

Foi muito bem recebido
Pela família rival
Quem não gostou dessa história
Foi um tal de Juvenal
Era irmão de Julieta
Rosnava feito animal

Chamou o coronel a um canto
E pôs-se a vociferar:
— O senhor aí não faz nada?
Não viu o sujeito entrar?
Deixa eu pegar esse frango
Com a raça dele acabar!

Souza Emílio deu-lhe um tranco
A modo de acalmá-lo
— Moleque! — falou — crie juízo
Não venha cantar de galo
Você é o meu herdeiro
Então escuta o que eu falo

Hoje aqui não quero briga
Não dê motivo a cilada
A política me ensinou
Que uma risada bem dada
Nas barbas do inimigo
Machuca mais que pancada

Juvenal fechou a cara
Nem um pouco satisfeito
Jurando para si mesmo
— Um dia o pego de jeito
E disse: — Pai, obedeço
Porque lhe devo respeito

Enquanto isso, Romeu
Guardava oportunidade
De armar o fuzuê
Espalhar calamidade
Aquela festa da peste
Não ia deixar saudade

Decidiu: — Vai ser agora!
Fez sinal à cabroeira
Mas ficou desnorteado
Tropeçou numa cadeira
Deu-lhe um braseiro no peito
Feito lenha na fogueira

A causa foi que ele viu
Descendo por uma escada
Uma moça em que a beleza
Havia feito morada
Tudo mais à sua volta
Era menos do que nada

Sentiu mesmo um calafrio
Sem saber de onde provinha
Puxou por um conhecido
Perguntou: — Quem é a mocinha
Que passou ali agora
Com ares de princesinha?

— Julieta — disse o outro
É filha do coronel
A cabeça de Romeu
Girava igual carrossel
Julieta, Julieta!
Som mais doce que o mel

Por seu lado, Julieta
Caiu também no alvoroço
Perdida por conhecer
Quem seria aquele moço
Aquele gentil cavaleiro
De lenço azul no pescoço

O Romeu naquele estado
Esqueceu sua missão
Veio um jagunço do lado
Perguntar: — Como é, e então?
A festa tá bem maneira
Só falta atear o rojão

— Esquece! — disse Romeu
Não quero estragar a festa
Não quero ficar marcado
Por uma ação desonesta
Julieta não tem culpa
Se o pai dela não presta

Só que, aí, não deu mais tempo
De evitar a confusão
Porque um sujeito mamado
Com fama de valentão
Quis arrastar uma moça
Da sala para o porão

O irmão da moça ofendida
Apareceu avexado
Partiu pra cima do outro
Gritando — Cabra safado!
O tempo fechou na hora
Foi soco pra todo lado

O motim foi aumentando
Degringolou a festança
No meio do arranca-rabo
Todo mundo entrou na dança
Romeu tentou apartar
Perdeu logo a esperança

Era murro e safanão
Coice, empurrão, cabeçada
O coronel se escondeu
Depois que levou uma unhada
O delegado correu
Pra debaixo da almofada

Era rasteira, umbigada
Tapa na orelha, beiçada
Chave de braço, joelhada
Voadora, garrafada
Trança-pé, frigideirada
Beliscão e sapatada

Não sei descrever a folia
Pois me falta um bom critério
Mas, pra resumir a história
Foi um caso muito sério
20 foram pro hospital
E 4 pro cemitério

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