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Capa da 1a. edição das Crônicas de Holinshed |
As Crônicas de Holinshed
Em 1577 Raphael Holinshed publicou as "Crônicas de Inglaterra, Escócia e Irlanda". O livro fez muito sucesso e se tornou uma das fontes favoritas de Shakespeare para os enredos de muitas peças, principalmente no início de sua carreira. Mais tarde, ele voltou a Holinshed para criar Macbeth.Esta postagem é uma introdução à tradução dos textos (inéditos em português) que se referem aos personagens da peça encontrados nesse livro.
Holinshed não fazia muita distinção entre história e lenda, e Shakespeare, por sua vez, também não estava preocupado com a veracidade das narrativas. O objetivo destes artigos não é encontrar a verdade histórica, mas apresentar ao leitor algumas das fontes diretas que inspiraram a "peça escocesa".
Curiosamente, segundo os estudiosos, todos os principais personagens de Macbeth existiram na vida real, exceto Banquo e seu filho Fleance. Eles fazem parte de um mito criado e promovido pela dinastia Stuart, à qual o rei James I da Inglaterra (e James VI da Escócia) pertencia. Por questões de ancestralidade e legitimidade, James se proclamava descendente de Banquo, que teria sido raiz da nobre linhagem da sua família. No texto das Crônicas, publicadas antes do reinado de James, Banquo é parceiro de Macbeth no assassinato de Duncan, mas Shakespeare, para não magoar o monarca, transformou-o nesse nobre personagem que é capaz de fazer Macbeth se sentir moralmente acanhado.
Como se tornar rei da Escócia
O reino que conhecemos como a Escócia foi fundado em 848 por Kenneth MacAlpin. O marco dessa fundação foi o traslado, das terras celtas do oeste para a abadia de Scone, no leste, da "Pedra do Destino" ou da "Coroação", um arenito sobre o qual os reis tinham de ser coroados para que valesse.![]() |
Réplica da Pedra da Coroação, em Scone |
Nos quase dois séculos que se seguiram, nenhum rei escocês foi sucedido diretamente por seu filho ou neto. A sucessão na época ia para o membro mais forte da família. Era comum o novo rei subir ao trono assassinando o velho rei. Isso começou a mudar com Malcolm II (que reinou de 1005 a 1034). Ele também se tornou monarca pelo método aprovado de matar um tio. Mas conseguiu fazer com que seu neto, o Duncan que aparece na peça, fosse seu herdeiro, eliminando o maior número possível de potenciais rivais. Em 1034, Malcolm II morreu durante uma luta e Duncan tornou-se rei apesar de ser muito jovem, uma vez que os outros pretendentes à coroa estavam mortos ou exilados.
Os Macbeth
Um rival não morto por Malcolm II foi o mormaer (chefe, lorde, monarca, algo assim) de Moray: Macbeth. Ele era primo de Duncan e tinha tanto direito ao trono como este. Há quem diga que Macbeth tornara-se mormaer de Moray matando o anterior e se casando com a viúva, Gruoch (primeiro nome da Lady Macbeth).Lady Macbeth tinha um filho do casamento anterior, Lulach, que não é mencionado na peça, exceto quando ela fala sobre o filho que amamentou. Como Macbeth mesmo diz não ter filhos, essa referência a Lady Macbeth como mãe tem proporcionado muito assunto aos críticos literários.
O casal assassino
O enredo do casal assassino, na verdade, não foi inspirado em Macbeth e Gruoch.Em 1040, Duncan, que era considerado pelos súditos um rei fraco, decidiu mostrar sua autoridade sobre Moray e invadiu o condado. Macbeth derrotou Duncan com a ajuda de um primo norueguês, Thorfinn o Poderoso, e matou Duncan, ou durante a batalha ou logo depois dela.
A trama envolvendo o assassinato do rei, o envenenamento dos guardas, e até a pressão de Lady Macbeth sobre o marido, Shakespeare encontrou em outro evento narrado por Holinshed: o assassinato de um certo rei Duff por um tal Donwald e sua esposa, anos antes de Macbeth entrar em cena. O rei Duff havia chacinado uns parentes seus e não conseguia mais dormir, assolado por vozes assustadoras. Ele acabou chegando à conclusão de que isso era efeito de bruxaria praticada pela mulher de Donwald e então mandou matar alguns dos filhos dela... E ela se vingou exatamente como está na peça.
O fim
Macbeth reinou durante 17 anos e era muito querido e respeitado pelos súditos. Seu único defeito, segundo Holinshed, era o exagero com que ele aplicava castigos àqueles que cometiam algum delito, fosse leve ou grave. O filho de Duncan, Malcolm III, chamado de "Canmore" (Cabeça Grande), derrotou Macbeth na Batalha de Lumphanan em 15 de agosto de 1057. Macbeth ainda foi sucedido por seu enteado, Lulach, mas Lulach foi derrotado e morto por Malcolm alguns meses depois.![]() |
Lunphanan - local onde ficava a casamata onde Macbeth se entrincheirou |
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Pedra de Macbeth - de acordo com a tradição, aqui Macbeth foi decapitado |
Malcolm III casou com Margaret, uma princesa saxã, conhecida na Escócia como Santa Margarete. Margaret suprimiu o cristianismo celta trazido da Irlanda para a Escócia por São Columba e substituiu-o pelo cristianismo romano. Malcolm governou por 34 anos e foi sucedido por seu irmão, Donalbain (Donald o Loiro), que havia permanecido no exílio, na Irlanda, ao longo dos reinados de Macbeth e de Malcolm (parece que não eram tão amigos como na peça).
E as bruxas?
Elas estão presentes no texto de Holinshed, assim como nos livros de cronistas anteriores a ele. Elas eram muito respeitadas como profetizas de carne e osso, e até mesmo como verdadeiras entidades do destino, algo bastante natural para os antigos habitantes daquelas ilhas. Há quem diga que foi a rainha santa Margarete quem deu início à sua má fama, como forma de desacreditar as crenças celtas.Links
- Mural sobre Macbeth no Pinterest.
- Mural sobre Shakespeare no Pinterest.
NOTA
Como o significado dos nomes dos personagens é algo que muitos estudam em Shakespeare, é interessante chamar a atenção para o nome de Macbeth, pois seus diversos sentidos realmente aparecem durante o desenrolar da ação e têm um papel importante no conjunto dramático.Wikipédia:
Seu nome completo era Mac Bethad mac Findlaech (em gaélico moderno: MacBheatha mac Fhionnlaigh), anglicizado para Macbeth, tendo recebido o apelido de Rí Deircc, "Red King"; Macbeth significa "filho da vida". Embora pareça um patronímico gaélico, não possui qualquer sentido de filiação, mas carrega o significado de "homem correto" ou "homem religioso". Outra corrente propõe que essa palavra seja uma corrupção de mac-bethad que significa "um dos eleitos".
Veja uma amostra da nova tradução de Macbeth editada pelo blog Kairu:
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